sexta-feira, 21 de julho de 2017

A estradinha e a passarela


Saindo da cidadezinha de Iñapari no Peru, logo depois de cruzar a Ponte Binacional, bastava seguir à direita, descer sobre a linda passarela (ou ponte suspensa) e continuar uma prazerosa caminhada em uma estradinha de tijolos com dois metros de largura. Pronto, chegava em Assis Brasil. Isso mesmo, chegava...não chega mais; pelo menos por aquele caminho que foi esquecido.

sábado, 11 de março de 2017

A primeira ponte

Hoje Assis Brasil tem uma das mais imponentes pontes do Estado do Acre. É a Ponte Binacional Brasil-Peru, inaugurada em 2006 pelo presidente Lula. A obra custou quase 30 milhões de reais e concretizou o sonho de integração física com o país vizinho Peru.

Mas antes disso a primeira ponte que ligava as cidade de Assis Brasil e Iñapari (PE) era essa mostrada na imagem acima. A estrutura improvisada só durava os meses de verão, quando o Rio Acre fica bem seco.

A primeira metade da ponte era uma velha balsa de metal de propriedade da Prefeitura de Assis Brasil. A outra metade era construida com madeira da região.

Tudo improvisado, mas serviu pra muita gente e ajudou manter os laços de amizade entre brasileiros e peruanos.

sexta-feira, 10 de março de 2017

Nosso velho fogão a lenha



Na casa dos meus avós tinha um velho fogão a lenha. Ocupava quase toda a cozinha e o fogo praticamente nunca apagava.

Naquela época gás era artigo de luxo e poucos dispunham dessa regalia na pequena vila Assis Brasil.

De madruga o primeiro serviço do vovô era acender o fogo com gravetos e sernambi. Nessa hora a vovó já estava com a goma pronta para fazer as mais saborosas tapiocas da cidade.

O fogão a lenha também servia para esquentar o frio da garotada em dias de friagem. Todo mundo ao redor do fogão com as mãos estendidas em direção ao fogo. Ficávamos todos quentinhos e defumados.

Um dia o fogo apagou. O fogão deixou de existir. Vovó e vovô também tiveram que partir.

Agora o fogo do fogão só arde em meu coração.

O legado de um grande homem

Eunício Pereira Lima. Vereador por quatro mandatos em Assis Brasil-Acre. Homem simples, amigo e prestador à toda comunidade, sobretudo os mais humildes e necessitados.

Deixou seu nome grafado na história como esposo exemplar, pai amoroso e cidadão de conduta ilibada.

Como homem público foi exemplo de honestidade. Nunca se deixou contaminar com nenhuma prática corrupta e sempre pautou sua vida com ética e transparência.

Enfrentou o câncer de cabeça erguida. Batalhou com todas as forças até o último suspiro.

Que as novas gerações da pequena Assis Brasil conheçam o legado de EUNÍCIO PEREIRA LIMA e inspirem-se nesse grande exemplo de CIDADÃO.

A lenda do futebol amador de Assis Brasil

Cascata Futebol Clube. Esse foi o time de futebol mais querido e tradicional de Assis Brasil. Lamentavelmente encerrou suas atividades há alguns anos. Que a história inspire as novas gerações e essa grande equipe volte aos gramados.

Um dia histórico


10  de de outubro de 2010. Uma data que entrou para a história da pequena cidade de Assis Brasil. Naquele dia foram diplomados os primeiros universitários da cidade que concluíram suas licenciaturas no próprio município.

Um sonho antigo de dezenas de professores que foi possível graças a boa política do Governo do Estado e Universidade Federal do Acre.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Não há de quê!




Veio me cumprimentar de cabeça baixa. Estendeu as mãos sem olhar nos meus olhos. Falou com voz tímida como se tentasse esconder algo vergonhoso.
Aparentava ter não mais que quarenta anos. As mãos calejadas denunciavam a vida dura de quem vive do que a terra dá. 
Ainda de cabeça baixa me chamou pelo nome e pediu um favor.
- Desculpa!  Disse desconfiado como se tivesse feito algo de errado.
- Pode me fazer um favor? Perguntou com ar de desconfiança.
-Sim amigo! Em que posso ajudar? Respondi.
O homem puxou um papel do bolso da velha calça desbotada.
- É que não sei ler. Revelou-me como se tivesse confessando um crime horrível.
Peguei o papel. Li em voz baixa. Depois levantei a vista e vi que estava ansioso. 
Estendi a mão para lhe entregar o papel e disse:
- A conta vence hoje. Você pode pagar na lotérica aí dentro do mercado. 
- Obrigado! Agradeceu com postura de inferioridade.
Antes de voltar para o mercado e entrar na fila da lotérica, o homem fez questão de justificar sua condição.
- Sou filho de seringueiro. Moro na colocação Xapuri no Seringal Icuriã. Meu pai não me deixou estudar porque eu tinha que cortar seringa pra sustentar a família.
Já caminhando em direção à fila do caixa, o homem me chamou a atenção e disse orgulhoso:
- Meus cinco meninos estão todos na escola.

(Jerry Correia).

domingo, 19 de fevereiro de 2017

JOSÉ MONTEIRO DA SILVA: HOMENAGEM PÓSTUMA



A estrela brilhou em 1938 na cidade de Aracati;

foi no Ceará que nasceu e veio fazer história por aqui.


Homem honesto, amigo e trabalhador;

com humildade e perseverança logo seu espaço na política conquistou.


Foi prefeito por dois mandatos, vice-prefeito e até vereador;

fazendo sua parte na história, da política se aposentou.


Não foi doutor e nem rico ficou quando da prefeitura saiu;

continuou sua vida simples na pequena cidade de Assis Brasil.


As lembranças da cabeça branca e o sorriso de alegria;

Na mesa do dominó uma cadeira ficará vazia.


Chegou a hora da despedia, é o momento do adeus;

Vai-se indo Zé Monteiro para os braços do bom Deus.


(Jerry Correia)

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

O homem da lei


Delegado Eduardo Padilha.
A barba grisalha combinando com o cabelo espetado oriundos de uma mistura de índio com peruano era sua marca registrada. Moreno de boa estatura, pernas um tanto cambotas, olhos levemente puxados quase que cobertos pelas vantajosas sobrancelhas. Gostava de vestir calça camuflada, cinto a mostra de boa qualidade para segurar bem colada na cintura sua amiga inseparável que ajudava a colocar ordem na cidade.


Por anos trabalhou para manter a tal ordem em uma cidadezinha do interior. Fez bem mais que prender bêbados, separar briga de casais ou dá uma coça nos ladrões de galinha. Tornou-se, por opção, o inimigo número um do narcotráfico na região de fronteira. Perdeu a conta de quantos traficantes colocou atrás das grades. Ele odiava o poder destruidor das drogas e por isso dedicou a sua vida para combatê-la.


Andava sempre alerta e pronto para uma emboscada dos malfeitores. Aliás, toda cidade temia pela vida do mais popular delegado que resolveu decretar guerra aos perversos traficantes da região.


Na pequena delegacia da cidade, em vez de delinquentes, eram os cidadãos de bem que passavam a maior parte do dia conversando com o popular delegado. Idosos, autoridades, jovens e até crianças costumavam sentar no velho banco de cimento incrustado na parede lateral da velha delegacia para, simplesmente, papear com o homem da lei.


Tão popular, admirado, respeitado e querido pelos moradores. Mas odiado pelos ceifadores de vidas que viam uma pedra no meio do caminho que precisava ser removida a qualquer custo.


Quantas noites sem dormir, sozinho na escuridão ele era os olhos dos que descansavam em paz. Ele ali, na beira de um rio, ou embrenhado na mata, camuflado, disfarçado, a espreita pronto para o bote certeiro.


De repente a notícia: mais um traficante preso pelo extraordinário delegado.


Alguém dizia: só pode ter pacto com o capeta! Ele sempre acerta.


Mas não era o demo que cochichava em seu ouvido denunciando onde estavam os facínoras. Eram noites sem dormir, paciência sem fim e o desejo de erradicar um mal que ameaçava sua gente.


Homem de fé, diziam que tinha o corpo fechado. Já com idade para gozar sua aposentadoria preferiu continuar combatendo o crime. Mesmo com a chegada de delegado formado na universidade, continuou sendo o preferido dos moradores. Não parou de trabalhar, não importava se era delegado titular, subdelegado ou apenas agente de polícia. Era, acima de tudo, o homem da lei.


A dor no coração foi tão forte como um tiro. Rápida, certeira e repentina. Não teve como se defender, não servia a ajuda de sua amiga inseparável que por anos andou colada ao seu corpo. A mão no peito, a cabeça girando, os olhos ao apagar ainda contemplavam as lindas copas das árvores. Os joelhos no chão tentam sustentar o corpo, a força que sempre serviu em defesa de sua gente vai se indo lentamente.


O guerreiro sucumbiu. Não por mãos de homens, mas pela vontade divina que o protegeu nessa missão de paz.


Foi o homem, ficou o mito Eduardo Padilha.

 (Texto: Jerry Correia)

A chuva e suas lembranças


Um dia chuvoso daqueles conhecidos do inverno acreano. Muita água escorria pelas ruas de barro vermelho deixando a cidadezinha um lamaçal só. Naquela época pouquíssimas ruas do município eram pavimentadas. Por isso quando descia a chuva forte, a lama tomava de conta. Era muito comum ver as pessoas saírem de casa com sacolas plásticas amarradas nos sapatos. Parece brincadeira, mas era uma saída para não sujar o calçado na hora de ir trabalhar ou passear.

Diferente dos adultos, a criançada adorava quando caia uma chuva bem forte e demorada. Meninos e meninas ganhavam as ruas enlameadas para se divertir com as mais diferentes e inocentes brincadeiras. Começava com a brincadeira da “pira”, depois a da “sandália”, tinha também o “31 alerta”, e finalmente tudo terminava em uma grande ladeira de barro vermelho bem molhada que se transformava em um enorme escorregador. Era ali que a criançada perdia a noção do tempo e só voltava para casa debaixo dos gritos das mães preocupadas.

A chuva me faz lembrar aquele monte de gente na beira do rio admirado com a “cabeça d’ água”. Era quando as águas do velho rio Acre subiam rapidamente depois de alguns dias de chuva nas cabeceiras.

De repente o sino badalava na curva do salão do Sr. Alonso. Era o Major Salino. A maior embarcação que trazia óleo diesel para manter funcionando o gerador de energia da cidade.

Todo mundo na beira do rio fascinado com as águas e o movimento no porto. Era um sobe e desce no barranco liso. Poucos trabalhando e muitos olhando e jogando conversa fora.

Para subir o barranco escorregadio com os camburões de 200 litros de óleo diesel só mesmo na força bruta. Era aí que aparecia o pequeno Aprígio com seu boi de arraste. Todos ficavam admirados com a coragem e maestria do pequeno menino que dominava tão grande e forte animal. Descia até a beira do rio, amarrava o camburão na zorra e ordenava que o boi puxasse a carga até subir o barranco. Fazia isso durante todo o dia até descarregar o enorme batelão do Major Salino.

Chegava à beira do rio o caminhão do Kate carregado de botijão de gás. Rapidamente os homens começavam a atirá-los barranco abaixo. O trabalho se transformava em diversão. A criançada chegava pra perto e ficava admirada vendo as botijas rolarem até o rio. Lembro perfeitamente do barulho que fazia quando uma botija tocava a outra lá embaixo do barranco.

O porto era o local mais movimentado e divertido da cidade. Tinha uma velha e quebrada escadaria. Do lado ficava a marcenaria municipal e bem atrás a famosa movelaria do Olegario, Aluísio e Sr. Valdir. O local era mais frequentado do que o mercado municipal. Na verdade a grande especialidade dos proprietários e dos frequentadores era colecionar garrafas vazias de 61 da cana arriada. De longe se ouvia as gargalhadas do Olegario e do Sr. Valdir que entre um prego e outro, diziam eles, “uma dose pra calibrar os nervos”. Sr. Valdir, o mais velho dos três amigos continua alegrando a cidade com suas risadas contagiantes, enquanto Olegário e Aluísio partiram para outra vida deixando boas lembranças.

A chuva nos traz boas recordações...

Antiga movelaria dos amigos Olegário, Aluísio e Valdir.
(texto: Jerry Correia)